06 outubro 2014

Notas sobre auto-análise, mapas e América do Sul

Globe


Sonhos são feitos de tentativas. De ir por impulso depois de pesquisar, analisar, desistir e insistir. Não sei como eles nascem, só percebo quando estão feitos, com forma, cor, cheiro e música... Insistindo para serem realizados.

Não me dou conta quando estou vivendo um deles, porque nunca parecem possíveis antes. E depois de serem, parecem um milagre. Algo não realizado por mim ou por meus esforços, porque não pareço capaz. Continuo a mesma. Mesmo depois das experiências, das memórias, das vidas que encontrei, dos lugares que visitei, dos silêncios que escutei, ainda sou apenas eu. Um eu melhorado, obviamente. Um eu deslumbrado com o tamanho do mundo que existe em um jardim. Mas ainda assim eu. Isso é interessante: perceber que no olho do furacão, parte da paisagem permanece no mesmo lugar. Vir de onde eu vim, ser o que me ensinaram. Eu mudo o tempo todo, mas, quando olho pra trás, eu sou a mesma.

Não há nada mais humanamente belo do que trocar ideias com alguém que eu nunca iria conhecer. Alguém que não vive no mesmo hemisfério, no mesmo lado do principal meridiano. Alguém que não escreve com os mesmos caracteres que eu. Alguém que não sabe nada sobre mim ou quase nada sobre meu país. Alguém que por alguns instantes é meu amigo, confidente, colega de aventuras, "rival" numa discussão. Alguém que provavelmente não verei nunca mais. Me sinto despertada. Com vontade de não parar nunca de conhecer. De deixar o novo me encontrar e me cativar. De ser um bom ser humano para outro.

É tão bom olhar o mapa mundi e me lembrar de amigos. Engraçado como hoje olho o mapa com afeto e não apenas com curiosidade como outrora. O mundo parece tão acessível e fácil quando se olha o mapa. Cartagena é tão perto de Miami. Parece ser possível cruzar a América do Sul em uma motocicleta em apenas poucos dias. Me pego pensando quanto tempo levaria de Caracas à San Juan ou Roseau ou Santo Domingo. Apenas algumas horas. Se saíssemos pela manhã de navio, talvez chegaríamos antes do almoço. Ou se saíssemos depois do almoço, teríamos a chance de ver o pôr do sol no mar antes de chegarmos ao destino. E nem precisaria ser horário de verão para isso.

O Brasil às vezes parece maior do que é. Principalmente se você mora no leste do Sudeste. É quase impossível pensar em subir de bicicleta até a Venezuela ou a Colômbia. Porque é muito Brasil para andar. Mais do mesmo, monótono e entediante. PECADO! O Brasil nunca poderia ser classificado com esses adjetivos. Mas ainda assim, não é o mesmo que andar a mesma distância e cruzar, no mínimo, cinco países ao invés de cinco (ou menos) estados.

*Texto escrito em algum lugar no espaço aéreo internacional.