01 maio 2009

A sustentável ausência da distração eletrônica


Outro dia ouvi uma colega dizer que não imagina a vida sem a internet, pois tudo o que faz, seja trabalho ou lazer, é através da rede. Mais recente, a mãe de uma amiga disse que acompanha todas as novelas da Globo e que quando estas acabam muda o canal para “pegar as da Record”. Achei tudo isso um exagero. Mas, tão logo passei por um - ainda desconhecido- tormento.

Há pouco tempo mudei de casa e, além de perder a internet, minha televisão ficou sem sinal. Quase fiquei doente. Vagava pelos cômodos da casa a procura de distração, estava profundamente abatida. O tédio era aflitivo.
Então, sem minhas ocupações virtuais me lembrei de um velho hábito sufocado pelo corre-corre de todo dia e pela comodidade de assistir tudo resumido na televisão. Me lembrei de outro universo irreal, porém mais fascinante que o orkut. Imergi na literatura.

Entre clássicos e best-sellers adolescentes revivi emoções e sensações adormecidas na insustentável leveza da alma. Visitei Londres, Praga, Alemanha, Rio Grande do Sul e a amena Itabira.
Durante dias observei um homem se metamorfoseando em um inseto gigante. Ouvi confidências de um itabirano apaixonado. Vi um bruxo enterrar um elfo no jardim de uma grande Toca. Por várias vezes desci ao porão de uma casa humilde para, junto com uma alemanzinha, ler para um judeu histórias de livros roubados. Me apaixonei por um vampiro indizivelmente belo e, no tempo fugaz entre um epílogo e outro, também amei um majestoso lobo febril. Mas, agora estou empenhada em descobrir o que importa na vida: se o pólo positivo ou negativo, se o peso ou a leveza de ser.

Enquanto não viro a última página dessa eterna busca, sinto a paz que provém da satisfação da alma. A doce alegria de viver com paixão várias vidas de uma só vez. O tipo de coisa que não se tem no MSN, na novela das oito ou no Faustão.

É claro que não aboli os meios tecnológicos de entretenimento da minha vida. Mas percebi que nenhuma engenhoca se compara com as palavras gravadas artisticamente no papel. O famoso humorista, Groucho Marx, de filmes clássicos como Diabo a Quatro, disse algo extremamente coerente com esta breve reflexão. “Eu acho a televisão muito educativa. Toda vez que alguém a liga, eu vou para a outra sala e leio um livro”. Boa escolha!

Por Vanessa Sezini

Nota: neste texto faço referência aos seguintes livros:

- A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera.
- A Metamorfose, Franz Kafka.
- Antologia Poética, Carlos Drummond de Andrade.
- A menina que roubava livros, Markus Zusak.
- Harry Potter e O Enigma do Príncipe. JK Rowling.
- Crepúsculo, Stephenie Meyer.
- Lua Nova, Stephenie Meyer.