03 março 2009

Ela, o céu, as estrelas e um garoto




Ainda me lembro daquelas noites de Cruzeiro do Sul. Horas na varanda escolhendo uma estrela. Era como um ritual. Ele praticamente me obrigava a estar lá, sempre às 22h30. Eu não precisava fazer nenhum pedido se eu não quisesse, também não tinha que me preocupar em conversar, cantar, sonhar ou qualquer coisa parecida. Só precisava estar ali, olhando para o céu.

É engraçado porque, normalmente, os românticos sonhadores escolhem a estrela mais bonita, memorizam sua localização exata e então se apropriam dela. Mas, para ele não podia ser assim. Toda noite tinha de ser uma estrela diferente. Ele não se satisfazia com o previsível, gostava de tentar adivinhar qual eu tinha escolhido. Mas dificilmente acertava. Acho que foi por isso que se interessou por mim.

Quando acontecia algo de caráter extraordinário que atrapalhasse nossa rotina de ver estrelas, ele me acordava no dia seguinte com uma descrição detalhada da sua noite anterior. A mensagem chegava minutos antes de o despertador começar a incomodar. A posição e o tamanho da lua não eram esquecidos em seus relatórios, como também a quantidade e densidade de nuvens. Praticamente o garoto do tempo.

Não sei por que ele gostava de fazer isso, e muito menos por que eu gostava tanto de tudo isso. Acho que pensávamos que isso nos aproximava.
Era como um contrato, uma maneira de impor lembranças, de prender esses instantes de contemplação no inconsciente do outro. Uma forma de sermos eternos na memória do outro, ou pelo menos enquanto existir estrelas. Nem mesmo a infinidade de montanhas, rios e florestas entre nós dois, podia nos fazer esquecer da saudade. Por que? Como?... Eu também não sei. Essa deve ser uma daquelas coisas que não se consegue explicar.

O que eu sei é o que eu sinto. Ainda hoje sinto. Mesmo sabendo que ele não pode mais.
Agora fico sozinha a ver estrelas. Por horas tento encontrar a que se pareça mais com ele. Sei que ele também me procura entre as pessoas do mundo. Mas também não deve ser fácil me encontrar. Lá de cima a gente fica parecendo formiga. Uma multidão de formiguinhas correndo de um lado para o outro. Trabalhando, estudando, cuidando da vida e esquecendo que ela está passando.
Passa, passa muito rápido. Tão veloz quanto uma estrela cadente. Quando nos damos conta que ela está ali, não dá mais tempo de fazer o pedido. E os desejos não se realizam.
A vida passou para ele, mas a saudade vai durar para sempre. Pelo menos enquanto existir o céu, ele existirá em mim.

Por Vanessa Sezini